24 outubro 2015

A neologia a serviço da mídia

Posted by Blog Café Contexto On 18:10 1 comment


O conceito de neologia aplica-se a todos os fenômenos novos que atingem uma língua. No nível lexical, referia-se, inicialmente, à criação de uma nova unidade lexical ou ao empréstimo de uma unidade pertencente a um outro idioma. Com a implantação de políticas de planejamento linguístico em vários países ou comunidades linguísticas, esse conceito foi adquirindo novos matizes, passando a estabelecer relações muito estreitas com a Terminologia. Desse modo, o conceito de neologia, antes restrito à língua geral, passou a ser aplicado também às línguas de especialidade. (ALVES, 1996, p.11-16) 

Conforme afirma FERRAZ (2005), o léxico é constituído de unidades criadas a partir da necessidade, expressa pelos grupos sociais, de interação com o universo sociocultural, e por isso mesmo essas unidades, emanadas desses grupos, carreiam informações diretamente relacionadas às experiências humanas. É o que se observa no português contemporâneo, tendo em vista o acervo de neologismos que surgem na mídia, em função do dinamismo da língua e também dos meios de comunicação, que renovam nosso repertório lexical todos os dias.
Sob o ponto de vista diacrônico e psicológico, considera-se a comprovação da data de surgimento de uma unidade léxica num dicionário ou num corpus textual e, ainda, a avaliação do sentimento de novidade que um determinado grupo apresenta em relação à unidade léxica em questão.
As formações neológicas que circulam na mídia comprovam quão produtiva é a nossa língua e, ao mesmo, tempo, revelam a importância do critério da comprovação sistemática das unidades que surgem em novos contextos, numa seleção de dicionários de língua que faz com que as unidades que ainda não estejam dicionarizadas sejam consideradas neologismos lexicográficos. Talvez, pelo fato de um dicionário não reunir todas as palavras da língua ou por não ser atualizado com frequência.

Sabemos, contudo, que o que define a entrada de novos verbetes no dicionário é o uso, a frequência com que a palavra é utilizada por determinada comunidade. Nos últimos meses, em nossa pesquisa, não faltaram exemplos de neologimos semânticos que circulam na imprensa. São casos de palavras que já existiam e ganham, de repente, um novo significado, tendo em vista o contexto em que são empregadas. Caso de "coxinha", "panelaço" e, até mesmo, "manifestação", que virou sinônimo de protesto, caracterizado pela presença de multidões nas ruas do Brasil. Em outros casos, observamos criações que são lexicográficas e, pela maneira com veiculam na mídia, não significa que serão eternizadas em algum dicionário. Na semana passada, o juiz "desexpulsou" o jogador do Palmeiras, enquanto a presidenta Dilma é investigada pelas suas "pedaladas" fiscais".

Nesta semana, foi aprovada a medida provisória (MP) que permite a aposentadoria no regime geral da Previdência Social pela regra conhecida como 85/95, que também contempla a "desaposentação", ou seja, o recálculo da aposentadoria após a pessoa ter continuado a trabalhar depois de se aposentar. O dicionário Caldas Aulete registra desaposentar, mas não desaposentação, que, agora, faz parte do vocabulário da Previdência. Desta forma, o fluxo contínuo de palavras que compõem os discursos políticos ou mesmo os contextos vinculados ao esporte geram uma oportunidade de reconhecer as unidades léxicas a partir de suas relações com outros itens lexicais nos atos discursivos. Quando um falante conhece uma palavra, ele deve revelar o conhecimento da rede de associações entre a palavra nova e outras que já pertencem ao seu acervo linguístico.
Diante de semelhantes enunciados, importa considerar o valor dos neologismos no que concerne ao ensino do léxico. Apresentamos uma parte do nosso corpus de neologimos, colhidos em textos da mídia impressa popular, veiculados no jornal SUPER NOTÍCIA, desde junho de 2015.


1. PANELAÇO- Moradores do bairro Marajoara em Betim reclamam de córrego poluído (24/10/15)
2. Dilma se beneficiou eleitoralmente com 'pedaladas fiscais', diz Julio. O procurador lembrou que a Lei de Responsabilidade Fiscal tem preocupação específica com o ano eleitoral porque foi criada para acabar com a "farra" de gastos públicos (01/09/15)


3. Mas, não, essa foi a rodada para falar de um outro jogo, que teve seis gols: cinco da Chapecoense e um do Palmeiras. Supergoleada. Mas os gols ficaram em segundo plano. ¨Desexpulsar'. Não, esse verbo não está no dicionário. Na verdade é uma palavra que nem existe. Mas, no domingo (4), não é que ela foi usada no Brasileirão? (05/10/15)


4. Cicloviagem- Pedalando para o Guinness
O mecânico Denizart Simões, 54, pretende bater o recorde de pedalas dando a volta ao mundo; ele já fez 450 mil quilômetros e faltam 50 mil para entrar para o Guiness. (23/10/15)
5. Haddad diz que chamar alguém de 'coxinha' não é pejorativo
Na ocasião, a assessoria do prefeito disse que o tuíte foi bem-humorado, uma brincadeira. (16/06/15)


(Os exemplos usados no post fazem parte do corpus do meu projeto de pesquisa, em andamento na UFMG.)
Fiquem atentos! A próxima postagem define e exemplifica empréstimos e estrangeirismos.

Professora Marília Pereira Mendes-
Mestre em Linguística Aplicada pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)-
Área de concentração: Ensino do português


Referências
ALVES, I . M. The concept of neology: from lexical description to linguistic planning. Alfa (São Paulo), v.40, p.11-16, 1996.
FERRAZ, Aderlande Pereira (2005), “A perspectiva diatópica na variação do português do Brasil”. Maestria, (FEMM, Sete Lagoas) 3: 53-70.
https://iberystyka-uw.home.pl/pdf/Dialogos-Lusofonia/Coloquio_ISIiI-UW_8_FERRAZ-Aderlande PEREIRA_Neologismos-no-portugues-brasileiro.pdf

1 comentários :

Professora, seu blog é lindo, tem conteúdo.
Já estou seguindo.
Beijo.
Júlia

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