29 março 2015

O enterro prematuro e outros contos

Posted by Blog Café Contexto On 19:26 No comments

Na obra O enterro prematuro, de Edgar Allan Poe, algumas características tornam-se semelhantes no estilo do autor, considerado o mais romântico dos principais escritores americanos. Além de abordar problemas entre o bem e o mal, Poe envolvia a temática do sofrimento, causado, quase sempre, pela morte de um amante. Na poesia, ele se destaca pela  musicalidade, dando a impressão de que o som é mais importante que o sentido, caso do poema O corvo.

       Considerado o “criador” do conto policial,  seu principal mérito está na habilidade com que criava suas histórias. Foi o pai das histórias de terror, misturando mistérios e temas macabros, quase sempre finalizados com a morte ou a prisão dos protagonistas, caso do Gato Preto (The Black Cat, 1843). Tzvetan Todorov, em "Introdução à literatura fantástica (2004)", define o fantástico como sendo "a hesitação experimentada por um ser que só conhece as leis naturais, em face de um acontecimento aparentemente sobrenatural."
        Desse modo, encontramos em Poe, um conto estranho, que desafia a lógica, impactante pelos personagens que vivem neuróticos, em cenários escuros, retratando, minimamente, a história semelhante a do autor. O alcoolismo fez parte da sua história como a do narrador do Gato Preto; a esposa morreu tísica, o que contribuiu para o seu delírio. Seus personagens são marcados pelo sofrimento e pela morte. Seus contos têm traços góticos muito bem delineados.
        O que os os contos lidos no Enterro Prematuro têm em comum? A lucidez que se opõe à loucura, os crimes, o foco narrativo em 1ª pessoa e os contos em forma de manuscritos do narrador-personagem.


O gato preto é a história de um bondoso homem que parece sofrer de uma perturbação mental causado pelo álcool, amante dos animais que se torna cruel, fazendo maldades com o seu gato. A sua loucura e perseguição para matar o gato acaba fazendo com que ele mate sua própria esposa e age friamente emparedando o corpo. Todos os acontecimentos desse conto giram ao redor do gato.
Gostava muito de animais, e meus pais me deixavam ter grande variedade deles. Passava com eles quase todo o meu tempo, e nunca me sentia tão feliz como quando os alimentava ou os acariciava. Com o tempo, essa particularidade de meu caráter aumentou e, quando me tornei adulto, fiz dela uma das minhas principais fontes de prazer. (POE, 2005, p.11)
Em O poço e o pêndulo é contada a história sofrida de um homem preso e torturado fisicamente e psicologicamente pela Inquisição. E mesmo sem chance de escapar ele tenta permanecer vivo.

"A morte", disse a mim mesmo. "Qualquer morte, menos a do poço!" Insensato! Como não pude compreender que era para o poço que o ferro em brasa me levava? Resistiria eu ao seu calor? E, mesmo que resistisse, suportaria sua pressão? E cada vez o losango se aproximava mais, com uma rapidez que não me deixava tempo pra pensar. (Poe,2005, p.98)
        Concentrado no terror psicológico, os contos de Edgar Allan Poe trazem personagens bizarros,  como o protagonista que sofria de catalepsia (sono profundo), o que o torna temeroso, diante da possibilidade de ser enterrado vivo. Em um de seus ataques, caracterizados por notável profundidade psicológica, dentro de uma caixa escura, o narrador tem uma crise de  surto. O medo da morte e as peças pregadas pelo cérebro causam uma conclusão precipitada na tentativa de  entender a realidade. Em situações claustrofóbicas, o personagem pode ser a representação do próprio autor.
        Em "O coração delator", um homem, louco, que se diz um servo fiel do seu amo, um homem já em idade avançada, mas que já não aguenta mais a tortura de dia após dia ter que olhar para um rosto envelhecido e ver um olho com catarata, voltado em sua direção. Seria o olho a causa da sua fúria? Interessante apontar para a falta de um olho no gato preto, característica relevante que confirma a maior crueldade do narrador, ao arrancar o olho do animal. Seria o olho, nos dois contos (O gato preto e O coração delator), uma espécie de símbolo da visão obscura que o autor tinha sobre a vida e, quem sabe, sobre a própria vida? Entretanto, todo rancor pelo idoso, não se esgota no olho mas, sim , no coração, metaforizado pelo aspecto delator. 
    Em forte semelhança com o gato preto, O coração delator também desdobra a maldade, a loucura e o desespero de personagens sobrenaturais, que deram a Poe o título de mestre do gênero do terror e o pai da literatura policial.
Simplesmente, genial!


                    Professora Marília Mendes


Referências


POE, Edgar Allan. Biblioteca Universal Estados Unidos: Contos. São Paulo, Três, 1974, p. 09-15

TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2004.

< http://www.webartigos.com/artigos/a-literatura-fantastica-de-edgar-allan-poe/72938/>



O título do conto, resumido em apenas um nome, já aponta a importância da personagem Berenice para o narrador Egeu. Os dois crescem juntos no antigo solar da família. Nas primeiras fases da vida, Berenice é bela, ágil e alegre, enquanto Egeu apresenta-se recluso e entregue a atenções extremas por decifrações teóricas, bem como por banalidades do dia a dia.
Usando o poder que lhe é conferido como narrador personagem, Egeu justifica seu afastamento da realidade pela excessiva dedicação aos livros; descrevendo seu comportamento, delineia para si um perfil de monomania. Em contrapartida, Berenice era descrita como um ser cheio de vivacidade e transbordante de beleza, sendo evocada romanticamente pelo narrador como “sílfide entre arbustos” e “náiade entre as suas fontes”. Com o passar dos anos, o que seria fantasia passa a ser vivido como o real para Egeu; e o real passa a ocupar o lugar dos sonhos.
Inesperadamente, na vida adulta, Berenice é acometida por um mal, que a transforma totalmente. A doença inicia como um problema mental, que gradativamente vai atingindo seu estado físico, tirando-lhe toda a beleza e jovialidade. Esta Berenice da maturidade terá a fisionomia, abruptamente, aproximada do real, não cabendo, assim, em um mundo de devaneios, ocupado por “sílfide” e “náiade”. Neste momento, Egeu tem seu olhar despertado para algo que permanece intacto em Berenice, os seus dentes. E assim, ele terá sua atenção totalmente voltada para este sorriso, fixando, doentiamente, seus pensamentos nisto.
Tudo indica que na casa onde vive Egeu realizam-se todos os ciclos da sua existência. Este espaço real do conto é descrito como um lugar de nascimento e de morte, de fim e de recomeço. Seria assim com Berenice, ali ela nasceu e viveu a maior parte da sua vida, tendo recebido, também ali, o decreto de sua morte. Obcecado pela Berenice da infância e juventude, Egeu quebrará este ciclo, invadindo um sepulcro para tomar posse do único elo que o faria reaver a sua Berenice. Espantoso!
http://eguelman.blogspot.com.br/2012/06/berenice-conto-de-edgar-allan-poe.html
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