16 fevereiro 2013

Ri melhor quem não ri...

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Por MARCOS - 15/02/2013 às 14:55
 
Sempre que me pedem para falar do preconceito linguístico, a primeira coisa que digo é: “Não existe preconceito linguístico”. As pessoas se surpreendem: como assim? Afinal, não publiquei em 1999 um livrinho exatamente com esse título? Mas logo eu trato de explicar: o preconceito linguístico é, lá no fundo, um preconceito social. Com o avanço dos direitos humanos e a democratização mais ampla das sociedades (não todas, é claro), antigas discriminações infundadas como o racismo, o sexismo, a xenofobia, a intolerância religiosa, a homofobia e tantas outras foram perdendo terreno e sofrendo a merecida punição, inclusive graças à promulgação de leis específicas. Com isso, pouca coisa restou para aquelas pessoas que, na crença da superioridade de algumas sobre todas as outras, querem a todo custo erguer um muro simbólico de separação entre os grupos sociais. Ora, entre essas poucas coisas está precisamente a língua que falamos. Se já não posso discriminar uma pessoa por ser negra, mulher, pobre, homossexual, deficiente físico etc., ainda tenho uma última bala no cartucho: discriminá-la pela língua que ela fala ou pelo modo como ela fala a mesma língua que eu.
 
O mais triste é que, ao contrário das outras formas de discriminação social, a discriminação pela linguagem não é reconhecida como tal, não está sujeita a nenhuma penalidade. Ao contrário, o preconceito linguístico é talvez a única atitude social que encontra acolhida em todo o espectro ideológico: quando alguém fala em “defender a língua” ou “proteger o português”, recebe aplausos desde a extrema esquerda até a extrema direita. É porque a linguagem é o mais poderoso elemento de controle e coerção social que existe. Antigamente, ainda existia a religião para aterrorizar os espíritos até em sua mais recôndita intimidade. Após as revoluções ocorridas nos últimos 250 anos, a infalibilidade papal e a ameaça do fogo eterno chegam mesmo a divertir as pessoas mais fiéis. Mas a linguagem continua, firme e forte, a ser manipulada por aqueles que, no topo da pirâmide social (ou da cadeia alimentar, como gosto de dizer), querem manter a todo custo essa posição privilegiada. Daí a minha resposta: não existe preconceito linguístico — a discriminação pela linguagem é só um disfarce para a discriminação mais ampla, a discriminação social.
 
Uma das grandes contribuições da ciência linguística foi provar a existência de traços universais, presentes em todas as línguas humanas. E poderia ser diferente? Afinal, todos os humanos, apesar de diferenças externas, superficiais (cor da pele, formato dos olhos, textura do cabelo), são biologicamente uma única espécie, dotada das mesmas potencialidades cognitivas, já que o cérebro é o mesmo. Por isso, o grande Lévi-Strauss pôde elaborar uma antropologia que identificava o que há de comum, de similar e de universal nas culturas humanas, apesar das aparentes diferenças.
Com isso, aprendemos que as línguas passam pelas mesmas etapas em suas transformações. A mudança linguística é um processo sócio cognitivo, isto é, ela se deve a fatores sociais (variação dialetal, contatos entre falantes de línguas diferentes etc.) e a processamentos mentais (analogia, reanálise, metáfora, metonímia, abdução etc.) e ocorre ininterruptamente. Só que ocorre, em cada língua, com ritmos diferentes.
 
Para o senso comum, porém, herdeiro de uma visão arcaica e pré-científica de linguagem, surgida no mundo grego no século III a.C., a mudança linguística representa a “corrupção” e a “degradação” da língua, sempre identificada exclusivamente com a língua escrita dos grandes escritores, como se não existisse a língua falada e como se a escrita não se manifestasse também em outros tipos e gêneros textuais.
Essa ideologia preconceituosa impede que as pessoas (inclusive profissionais da linguagem, professores de línguas e, algumas vezes, até linguistas!) percebam fenômenos interessantíssimos que servem (ou deveriam servir) de base para muitas deduções importantes sobre o funcionamento das línguas. A cegueira (e a surdez) linguística se enraizou profundamente na cultura ocidental e os cento e poucos anos de vida de uma verdadeira ciência da linguagem ainda não foram suficientes para abrir as mentes, os ouvidos e os olhos da maioria das pessoas sobre o assunto.
 
Os brasileiros vão estudar inglês e aprendem que nessa língua a morfologia verbal é simplíssima. No presente, a única forma diferente das outras é a da 3a pessoa do singular, que ganha um -s (he lives), enquanto as outras permanecem idênticas (I, you, we, they live). No passado, tudo fica exatamente igual (I, you, he, she, it, we, you they lived). Ninguém se assusta com isso, ninguém ri disso, e muitos até acham bom que seja assim, porque é mais fácil de aprender do que nas línguas (como o português, o alemão etc.) que têm uma morfologia verbal bem mais diversificada.
Qual é a reação, porém, desses mesmos brasileiros quando topam com algo do tipo eu morava, tu morava, ele morava, nós morava, vocês morava, eles morava? O riso, o deboche ou, no melhor dos casos, a compaixão pelos “infelizes caipiras” que “não sabem falar direito”, como se fossem menos inteligentes ou até menos humanos que os demais falantes. Ora, do ponto de vista exclusivamente estrutural, não há nada de melhor em I / you/ he / she / it/ we / you / they lived nem nada de pior em eu / tu / você / ele / ela / nós / a gente / vocês / eles / elas morava... O fenômeno linguístico é o mesmo, a recepção sociocultural do fenômeno — e só ela — é que é diferente. E é aí que a porca torce o rabo!

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