07 agosto 2011

Pai teto, mãe chão

Posted by Blog Café Contexto On 21:16 4 comments






Sempre que se aproxima o dia dos pais , começo a repensar a ideia do escritor Jack Bianchi : 
 
Desde aquele tempo, uma coisa ficou bem clara pra mim: Mãe é chão. Pai é teto.
Minha mãe era a emoção, a chamada de atenção mais enérgica, o ensinamento diário, o acompanhamento escolar. Sofria com as nossas ‘tristezas infantis’ e vibrava com nossas ‘pequenas conquistas’. Era ela quem dizia como comer, como falar, como tomar banho, como se comportar na frente dos outros. ’Se matava’ por nós e sempre muito feliz por isso. Meu chão.
Meu pai era o provedor. Nunca deixou faltar nada para os filhos. Os melhores colégios, as melhores roupas, os melhores brinquedos, as melhores férias. ‘Se matava’ por nós e sempre muito feliz por isso. Meu teto.
Não conseguia imaginar uma troca de papéis. Teto é teto. Chão é chão. E pronto.”


O fragmento me vem como contraprova do contexto familiar atual. Os pais teto estão muito semelhantes às mães chão e vice-versa. São pais que desempenham o papel do pai e da mãe ou o seu contrário. São pais separados que se viram nos trinta para dar conta do duplo  ofício.
Embarcando com atraso no aeroporto de Brasília recentemente, vi e 
segui a cena : um menino , com pouco mais de sete anos ,puxava a camisa do pai e apontava para o painel, indicando o 
voo . Ele insistiu muito, até fazer o pai voltar-se para o aviso e dar-se conta de que era a última chamada. Última chamada ? Como assim ? Não podia ser... O pai leva um choque e agradece ao filhão pelo lembrete. No embarque, já acomodados, dividi o espaço com os dois e foram mais de sessenta minutos de história. Ele, o pai, sem nenhuma cerimônia, comunica que quase perdera o voo e que ainda estava meio confuso. Perdera a esposa há três meses e ainda não sabia como lidar com o filho. Estava se sentindo meio sem jeito. E daí? -Pensei comigo mesma.

Ouvi com disposição aquele relato. Suas lágrimas acompanhavam um falar meio confuso, desorganizado pela circunstância em um rosto  com aproximadamente quarenta. Ele se lamentava e repetia algumas vezes que ser pai e mãe seria uma difícil tarefa. Não se sentia preparado. Durante todos aqueles anos, ele trabalhou para ser o provedor e que teve que aprender a ser mãe e a desempenhar o papel do chão ( era o que me vinha à cabeça). A chamada de atenção enérgica de que nos fala o escritor incluía aquela vantagem que as mulheres têm com os filhos. Elas são tão atenciosas. São de Vênus. Eu imaginava, fazendo alusão a outra literatura. Os homens são de Marte. Constatei... 
O pai que ele era , fazia dele o dono do dinheiro. Pagava as contas. Supria. Era o teto. O  que é um teto, por mais firme que seja , sem um chão? Indaguei.
E comecei a pensar demais. Pensei no meu pai e na minha mãe. Com mais de setenta, eles vêm segurando o alicerce dos filhos e estão cansados. Eu tenho o teto e o chão e por mais que eu tente me estruturar entre as extremidades, eles não podem deixar de ser minha referência.


A arquitetura da história a bordo parecia se encontrar com a realidade em solo. Por outro lado, identificava neles, pai e filho, um exemplo de milhares de histórias de filhos que terão a referência concreta ou de um teto ou apenas do chão e nem por isso, perderão o direito à felicidade.

O menino levantou o braço e de soslaio , chamou a atenção do pai. Queria um agasalho. Estava frio na aeronave. O pai se justifica: Até isso estou aprendendo.
Muitas coisas ele terá que aprender. As crianças de hoje vivem em estruturas muito comuns. Faltam-lhes o teto ou o chão, mas elas são erguidas com muita coragem. O homem separa-se da sua mulher. Pai e mãe não. Não se separam nem quando um vai antes da hora. Indicativo pretérito para a eternidade. São pais que reaprendem muitos conceitos e que se aprontam, sem muita percepção, para se tornarem avós . 

O tempo passa muito rapidamente e um simples descuido ou um ocasional despreparo pode ensinar ao teto que às vezes, é preciso ser o chão ou que o chão pode se moldar ao teto. Não há divisões. Educar terá sempre essa linha tênue arquitetônica. Entre os polos, erguem-se os filhos. Eles vão tremer na base durante muito tempo, mas o ensinamento dos pais será sempre a cartilha que vai falar mais alto. Ainda que alguns reparos sejam necessários, díspares, eles servirão de reboque para nos conduzir a alguma paisagem. Eu, humildemente, acrescentaria que os pais são uma espécie de tríade vitruviana . São donos do design do nosso caráter.
Feliz dia dos pais a todos que fazem parte da arquitetura estética à qual me refiro. Felizes construtores dos nossos edifícios clássicos, com ou sem o bedelho da modernidade.
Beijo papais. Vocês merecem ! 
                               Marília Mendes









4 comentários :

Lila, PRECIOSIDADE naquilo que vc escreve.Inspiradora de muitas almas. ler o que resumes com tão belas palavrassssss.Sou o pai teto e aprendi a ser a mãe chão.Deus tem me ajudado todos os dias.A saber vc não foi na corrida de sábado.Senti tua falta.sábado teremos mais provas.beijossssssssss.Gil

Gil, meu amigo.só faltei sábado.Mas estou me preparando para correr no Criança Esperança.Academia todas as noites.Já ganhei maior resistência.Agora não paro mais.Beijão e beijo nos filhotes também.Obrigada pelos elogios.Eu procuro sempre oferecer o melhor aqui no meu space.

Lindo Blog! Obrigado por ter incorporado o meu vídeo sobre Machado de Assis. Um grande abraço, André.

PS. visite outras vezes meu canal no youtube, também tenho um vídeo em homenagem a Chico Buarque, com um poema escrito com versos e títulos de suas canções, além de alusões biográficas. Para encontrá-lo, pesquisar no youtube por: ao poeta Chico Buarque.

Lila, seu texto me inspirou para o dia dos pais. Obrigada.
De

Postar um comentário

O Café Contexto agradece a sua visita!

Café Expresso