16 outubro 2011

Crônica na Cancela

Posted by Blog Café Contexto On 12:01 2 comments

 
Ele era forte, se é que a etimologia da palavra permitia incluir predicativos tão similares, um 
" louva-a- Deus" na sedução. Predador desde a sua entrada na repartição pública, tinha um lundum com as mulheres, incluindo as feias, as mais ou menos e as belas. Mas ela era das mais belas. Morena abotoava-se em vestidos elegantes , um pouco da perna à mostra e tinha seus encantos por onde passava. Driblava-se naqueles saltos espadrilhas, coloridos e clássicos e um homem forte, não resistiria. Morena era lupina, parecia dançar quando andava e em nome do amor e da lubricidade de pele, os dois viveram uma paixão rock'n'roll.

Colecionaram discos em vinil, dos Beatles até os românticos sons da mineiridade. Enlouqueceram muitas tardes e noites e fechavam os olhos durante o dia para sonharem um com o outro. Mal ele comprava o bilhete e ela estava lá, pontualmente, levando estado de graça na mala. Estado de graça era tudo o que ele precisava.


O nome dele era Oliveira. Assim ele se apresentava nos congressos, nos shows e nas confrarias. Um dia ele se foi. Todo raiva era ele e logo arrumou novo casamento. Casou-se com Dona Fábula. Fábula era o nome principal da moça. Alegórica, ela o tinha, mas vivia na tocaia, à espreita de Morena. Depois que instalaram a tal da rede naquele município Distrital, todo mundo vasculhava a vida de todo mundo. Mas Fábula era abundante demais. No pleonasmo ! Ganharia as bisbilhotices que regem as mulheres ciumentas. Ia todo dia ao "sítio" de Morena, procurava coisas, mapeava outras. Deixava lá todos os vestígios da incompreensão. Cocegava as amigas também, que iam junto. Mal sabiam que Morena sabia demais e definia, identificava e sabia que  Dona Fábula passava por ali.


Desprovida de modéstia, Morena curtia aquele escrutínio todo, sentia-se verdadeira diva refestelando-se no divã. Escorreita, começou caso de amor com um manobrista. O moço fazia manobras nessa estrada infinita que chamamos de Céu e pilotava com brilho, supermáquinas. Morena estava deslumbrada com suas particularidades . Mas nem isso, aquietava o coração de D. Fábula. Era só sobrar um tempo, lá estava ela na aba de Morena, curiositando os passos da moça. A atitude dela era uma espécie de GPS descomunal.


Morena foi morar fora, colecionava livros e palavras idiomáticas, entendia de adegas climatizadas e sofisticou-se . De vez em quando, tem pena de D. Fábula que não desligou seu desconfiômetro de vez.
Mas Morena perdoa também. Afinal, quando lembra de Oliveira hoje, ela finge que ele é amigo, que foi íntimo, que a fez sorrir um dia e deseja-lhe sorte.Autoriza-se apenas isso. Sabe-se que ele vai bem. Dona Fábula precisava acreditar nisso.

Ao fim de algumas tardes, sem vento e com uma terrível baixa umidade do ar, ele se encosta na cancela da fazenda que comprou em Goiás, cheio do charme que Deus lhe deu, com ar de homem fatal e beberica uma taça de Ferreira, reserva do Porto, com aroma intenso e toques florais , de evolução em madeiras. Na cancela paradisíaca, ele assovia uma canção e fecha os olhos...só para não ver passar o tempo.


                                                                      Marília Mendes 

 

2 comentários :

Muito boa cronica. Fechar os olhos 'para não ver o tempo passar' é descrição ótima. Abraço.

Boa crônica.Belíssima música e regravação do rei.

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